terça-feira, 4 de outubro de 2011

Conversa de Bar...


-Eu penso nisso todo dia: como posso gostar tanto assim de alguém? Tá, falando assim parece mais um diário de uma adolescentezinha qualquer, falando sobre aquele carinha bonitinho da outra sala. Mas o lance é que eu paro pra pensar em tanta coisa, em tanta história, e sempre eu sempre me surpreendo - olhava para o copo e forçava mais um gole, daquele quase-fim de Martini.

-Hmmm, sei... - num tom meio desleixado, o barman respondeu ainda sem muito interesse. - É, mas quando a gente tem muita coisa em comum, quando tem uma vida parecida, aí fica melhor pra juntar... - Tentou entrar no papo, era o único cliente no balcão. Com olhar distante e perdido, o apaixonado solta bem devagar, falando meio picotado:

-Definitivamente não somos iguais. E, eu sim, posso falar somos diferentes em tanta coisa. Cada um com uma doidera, com uma bobagem, mas essas coisas que chamamaram a atenção, que fizeram a gente se gostar, o tipo de coisa que vai virar piada depois... - E devolve a taça pra mais um drink. - Eu, que sempre fui muito certo de muita coisa, sempre convencido de fazer muita coisa do "meu jeito, o jeito certo de fazer", tomando tapa de luva dela. E tendo a chance de mostrar coisas que ela não enxergava. A famosa "relação de mão-dupla", sabe?

O barman pensa que vai virar um papo de divã, mais um cara chato que vem alugar sua santa paciência com conversa de bêbado. Pegou fôlego pra falar, mas foi interrompido:

-Eu já não consigo pensar em outra. Rapaz, de boa: você, com alguma namorada sua, já pensou em algum "e se..." com outra pessoa, certo? Tipo, estar com uma pessoa mas se imaginar com outra, só por curiosidade mesmo, pra mudar de vida por 3 segundos. O engraçado é que, de coração (não vou mentir pra você...), depois que eu fiquei com ela, nunca mais pensei em ninguém. Quer dizer, as outras ainda estão lá: lindinhas, oferecidas, gentis, com aquele sorriso esperto, engracadinhas e sonsas como sempre. Eu não assinei contrato nenhum, dizendo que iria 'arrancar meus olhos' quando ela dissesse 'sim'. Mas desde que ouvi o sim dela, não consigo me imaginar com outra. Não tenho vontade, nunca tive. Com outras namoradas eu já me imaginei sim com outras, e não fiquei só na imaginação... Já me chateei com ela sim, lógico, só que o que eu penso quando isso acontece é "só quero a mulher da minha vida, não dá pra querer outra pessoa... Não quero outra pessoa, e não quero querer outra pessoa". Tá entendendo? - Aperta os olhos e manda mais Martini pra dentro. À essa altura, o barman não parou de trabalhar, mas presta atenção, não sabendo se espera algo que o faça pensar ou uma fala engraçada que renda um apelido pro camarada. E é interrompido denovo:

-Enfim, não sou muito à favor da dependência que muito homem tem de suas mulheres. Esses dias eu tava nessa, e me dei mal. Mas eu gosto mesmo dela. Eu do meu jeito, ela do jeito dela, sei lá. Não me importo mais com isso. Eu sempre pensei assim: "não preciso me afastar pelas diferençar, posso me aproximar pelas coisas que temos em comum". É tão tosquinho, mas tão verdade... Vou parar de te alugar aqui, cara... Chega de Martini, to filosofando demais (risos)! fica na paz, boa noite, e bom trabalho! - Entrega a taça vazia, paga a conta logo ao lado, e deixa o barman, imóvel:

-Ah, se toda a conversa de buteco fosse assim...

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