Esse final de semana eu passei por uma situação interessante. Me disseram que um "determinado grupo de pessoas não poderia abençoar vidas pois não tem uma vida digna para tal".
Superficialmente é um argumento interessante e até certo ponto válido. Mas eu comecei a remexer essas palavras e conceitos e, com ajuda de alguns amigos e à luz das Escrituras, descobri uma série de falhas nessa linha de raciocínio.
Lembrei, enquanto a pessoa falava, de algumas coisinhas que aprendemos nas EBDs, da história do "Pecadinho e Pecadão", do "não julgar para não ser julgado", "de algumas histórias do Velho Testamento e até de uma musiquinha de EBF.
Sem delongas, vou começar o desabafo.
"...determinado grupo de pessoas não poderia abençoar vidas..."
A Bíblia conta histórias excepcionais, inúmeras. É muito interessante observar que elas se relacionam e tem princípios que, além de nos melhorar como cristãos e filhos de Deus, nos melhoram como simples seres humanos em nossa capacidade e habilidade, concedidos por Ele mesmo. E, sem muito esforço, podemos correr pelo Velho Testamento e localizar histórias que nos fazem questionar qual nossa real motivação e/ou objetivo no trabalho do Reino.
Há alguns anos eu ajudava minha mãe nos preparativos de uma EBF, em Linhares, quando ela colocou uma série de CDs pra selecionar algumas músicas e ensinar pras crianças. Era uns CDs legais, todos gravados por missionários estrangeiros. Ná época eu nem dava valor e, confesso, achava até estranhas algumas musiquinhas. Mas no recente episódio eu lembrei da seguinte letra: "Davi tinha um estilingue/ Sangar um aguilhão/ Dorcas uma agulha/ E um cajado Arão/ Raabe tinha uma corda/ Sansão uma queixada/ Maria um perfume e tudo isso Deus usou/ Tudo Deus usou, tudo Ele usou/ VOCE TAMBÉM TEM ALGO PARA USAR PARA O SENHOR."
Repare na variedade dos objetos apresentados na canção. Como se não bastasse, observe os personagens e leia as histórias sobre eles. Dentre as pessoas citadas podemos até encontrar uma prostituta, que mentiu para poder acobertar espiões israelitas na conquista de Jericó. E temos tantas outras histórias, que contém plantas, pedras, jumentos, mortos, moedas, barcos, gagos, cegos, leprosos, enfim, de tudo. É demais chegar pra alguém e dizer que essa pessoa não é capaz de abençoar alguém.
"...não poderia abençoar vidas pois não tem uma vida digna...".
Aqui o lance começa a ficar mais sério. Essas poucas palavras tem mais doutrinas distorcidas que muita igreja louca por aí.
Pra começo de conversa, somos todos pecadores. Eclesiastes 7.20, Romanos 3.23, e ainda Romanos 8 e 9, dentre muitos outros textos, deixam claro que TODOS SOMOS pecadores e, à não ser Jesus, ninguém que pisou na terra deixou de pecar. Isso não se discute, é fato. Não se trata de dogma nem de doutrina diferente em cada denominação, o fato é que já nascemos, desde o Éden, com intenção e coração pecaminoso e que, de formas diferentes, temos o pecado e o mal enraizados em nosso ser.
Agora vem a história de pecadinho e pecadão. Podemos citar novamente Rm 3.23, e ainda Tg 2.10, que é um de meus textos mais fortes nesse argumento todo. Eu li na internet que pecados tem tamanhos diferentes. Isso é mentira. Pecado não tem tamanho. O que tem tamanho são as consequências de cada pecado. E a Bíblia realmente fala disso, em Lucas 12.47, entre outros. E, sinceramente, isso também é bem volátil. No sistema de justiça, democracia, pensamento e comportamento (todos falhos) em que vivemos, uma mentira é vista como menos perigosa do que um assassinato. Mas isso é tão flexível a ponto de uma mentira ter o poder de matar e um assassinato ser em legítima defesa, 'simplesmente'. E aí?! A mentira não deixou de ser mentira e o assassinato não deixou de ser assassinato, mas por algumas circunstâncias podem ter significados e punições completamente diversas. No final das contas uma 'mentirinha' pode causar mais estragos que um assassinato.
E aí já entramos em outra situação: julgamento. Encontrei facilmente na internet um estudo sobre julgamento na igreja e sabe o que eu descobri: o julgar ao próximo é sim incentivado, e é bíblico! Os mais tradicionais e legalistas poderiam rapidamente citar Mateus 7.1, e com razão: "Não julgueis para não ser julgados". Obviamente, da forma com que erradamente julgamos, é melhor que nem julguemos!
Devemos sim julgar as atitudes de nossos irmãos com amor (tema para outros longos posts...), no intuito da edificação mútua e com humildade no apresentar de qualquer argumento ou circunstância, ou seja, o contrário do que fazemos. Isso é exortação. É totalmente hipócrita ou herege quando, frequentemente, 'apontamos o dedo na cara' de alguém e esfregamo-lhes seus erros na face, ao mesmo tempo que fazemos vista grossa aos nossos próprios erros. O mesmo texto de Mateus 7 complementa essa palavra, dos versículos 2 à 5. Romanos 12 fala sobre serviço, e cita sobre o dom de exortação ("...Ou o que exorta, use esse dom em exortar;...", verso 8). Numa outra tradução, o editor se refere a exortar como animar (NVI). Que legal! Podemos ajudar nosso irmão e o animar, quando cuidamos para que ele não erre onde não vê. Mas será que estamos fazendo isso?
O que eu quero dizer é, todos erramos, todos pecamos, em coisas diferentes. Se pecar tira nossa condição de adorar/abençoar, então ninguém - eu disse NINGUÉM - debaixo dos céus os pode fazer - e aquele que fala que não peca, mente, por isso peca! (risos!). Obviamente, Deus quer um coração quebrantado e arrependido sim, com a atitude de quem não quer mais errar os mesmos erros. Mas isso tanto vale pra um mentiroso quando para um assassino. Jesus perdoou um assassino minutos antes dele morrer. Ele errou, foi insensato durante toda a sua vida. Mas Deus viu seu arrependimento verdadeiro, sua atitude, Ele sondou o seu coração (Sl 17.9, Sl 139.23) e percebeu que ali existia verdade.
Jesus nos lava e nos perdoa sempre que chegamos realmente arrependidos e com sede de mudança. E testemunhar ao mundo essa atitude é um desafio nos dias de hoje, com toda essa vida que levamos. Escola, trabalho, casa pra manter, filhos pra cuidar, essas coisas estão por um fio no nosso dia-a-dia. Não deixar a peteca cair é para poucos. E por isso, quando as coisas não acontecem como esperamos, quando elas saem do nosso planejar ou controlar, ficamos alterados. E é verdade que erramos e pecamos em algumas situações como essas. E esse pecado é tão grande como o de um assassino em série, ou de um viciado, ou de um rebelde. Mas o pecado não importa. O que importa é a intenção de cada uma dessas pessoas. Onde Deus enxergar arrependimento, mudança de atitude e oportunidade de crescimento, alí existirá perdão. E isso vale pra um alguém que mata, ou para um caixa que rouba centavos de troco, ou para um filho que mente para o pai, com medo de contar a verdade, ou para a namorada que trai o namorado, ou para um funcionário que adota um comportamento absurdo ao obedecer o patrão.
Fico por aqui, nessa minha simples reflexão. Escrevo isso não com dureza, mas com amor, zelo, para falar sobre algo em que eu errei há algum tempo, e que, por consequência, me afastou de Deus, atrapalhou minha comunhão com Ele. Deus é um Deus de amor, Ele quer se relacionar conosco. E quer também que nos relacionemos verdadeiramente em paz e amor entre nós mesmos ("Mc 12.28-32). É verdade que O chateamos quando alimentamos esses problemas que, sinceramente, são tão simples de serem resolvidos, é o renunciar a si mesmo (outros longos posts...), tudo tão bíblico e fácil de se entender. Que Deus os abençoe!